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Persuasão

Eleições 2026: a maior engenharia de crenças da história

03 de agosto de 2026
Eleições 2026

Em um ano eleitoral, quando a disputa é por atenção e emoção, a manipulação vira a estratégia mais barata, mais eficiente e mais perigosa.

Há pouco tempo, vimos um exemplo perfeito de como o enredo certo pode suspender o bom senso. Uma jovem passou a ser celebrada como a primeira astronauta brasileira de carreira, supostamente vinculada à NASA. Fotos com trajes espaciais, discursos emocionantes, menções a universidades prestigiadas e supostas conquistas científicas compunham uma biografia digna de cinema.

O público reagiu com entusiasmo, autoridades prestaram homenagens e muitos veículos, sem pestanejar, celebraram a história em manchetes e postagens empolgadas. O que veio depois foi um espetáculo à parte, e constrangimento: publicações apagadas discretamente após um youtuber independente fazer o que ninguém havia feito direito: verificar os fatos.

Esse episódio diverte e entristece ao mesmo tempo. E é difícil não se perguntar: a que ponto chegamos com o nosso jornalismo “profissional”? Mas o ponto aqui não é a personagem. Meu objetivo não é condenar uma pessoa. É alertar para um fenômeno que tende a escalar.

Vivemos uma era marcada pelo culto à imagem e ao ineditismo. Nesse ambiente, narrativas bem embaladas se tornam quase irresistíveis, mesmo quando não passam de ficção. E é exatamente isso que me preocupa num ano eleitoral como 2026, especialmente com o advento acelerado da Inteligência Artificial e a facilidade crescente de fabricar “verdades” com aparência impecável.

A manipulação moderna não parece mentira, pois ela vem com estética de verdade. Ela se apresenta como se tivesse um propósito nobre, como “entregar esperança”, “inspirar”, “apresentar uma verdade oculta”, “cravar uma previsão avassaladora”. Ela usa linguagem emocional, imagens fortes e recortes cuidadosamente escolhidos para criar percepções. Então, quando a percepção se instala, os fatos passam a ser um detalhe incômodo.

A lógica digital favorece isso. Ninguém viraliza dizendo “estou evoluindo aos poucos” ou “estou aprendendo devagar”. O que ganha palco é o extraordinário, o inacreditável. A realidade é lenta demais para competir com uma narrativa bem editada.

Quando a narrativa rende atenção e seguidores, ela se torna tentadora. A manipulação é eficaz justamente porque entrega resultado rápido, podendo inclusive resultar em convites para entrevistas e mais prestígio.

Agora traga isso para a política. Em 2026, o risco não é apenas termos propaganda agressiva ou promessas vazias. Isso é o arroz com feijão do velho teatro. O risco real é outro: candidatos sendo construídos como personagens, com biografias infladas, virtudes encenadas, inimigos escolhidos a dedo e narrativas desenhadas para incendiar as emoções.

A Oxford University elegeu “rage bait” como o o termo que resumiu o ano de 2025. A tradução literal é “isca de raiva”, referindo-se principalmente ao aumento expressivo de conteúdos online deliberadamente criados para provocar raiva ou indignação, geralmente publicado para aumentar tráfego ou engajamento de uma conta.

E isso aconteceu porque a Inteligência Artificial multiplica essa capacidade em escala industrial. Textos impecáveis escritos em minutos, seguidos de vídeos e imagens convincentes. Depoimentos montados e recortes fora de contexto com aparência de denúncia, até de Microescândalos em série, distribuídos massivamente. O que antes exigia equipe, tempo e dinheiro, agora pode ser feito com eficiência assustadora. A manipulação, nesse contexto, não precisa ser perfeita. Ela só precisa ser rápida o suficiente para ocupar o espaço antes que a verificação chegue. Aí, o estrago está feito.

O Brasil é especialmente vulnerável a isso porque anseia por símbolos. Em tempos de frustração, insegurança e cansaço, cresce o desejo coletivo por figuras “salvadoras” e por alguém que pareça encarnar competência e esperança. Quando um político ocupa esse lugar simbólico, a vontade de acreditar se sobrepõe ao ceticismo. Não porque as pessoas sejam “burras”, mas porque emoção e identidade pesam mais do que fatos frios.

O episódio da falsa astronauta expôs uma fraqueza cultural: nós gostamos de acreditar no extraordinário. E quando essa predisposição encontra tecnologia, narrativa e tempo certo… ela vira arma.

Em um ano eleitoral, quando a disputa é por atenção e emoção, a manipulação vira a estratégia mais barata, mais eficiente e mais perigosa. E quanto mais sofisticada ela fica, mais ela se disfarça de “comunicação”. De “marketing”. De “propósito”.

Quando a política vira um campeonato de quem manipula melhor e mais rápido, não escolhemos líderes, mas narrativas. Talvez, estaremos vivenciando a maior engenharia de crenças da história. Será que estou exagerando? Qual a sua opinião?

Até mais!